Autoria: Prof. Roberto de Pádua Carvalho Reis
Coordenador do Curso Superior de Tecnologia em Agrocomputação e Inteligência Artificial e docente dos cursos de Pedagogia e Bacharelado em Educação Física da FFI.
Imagine a rotina de um produtor rural no interior do Maranhão. Antes do amanhecer, ele já está de pé, verificando o tempo, o solo, os animais, a lavoura. Ao longo do dia, decide quando plantar, quando irrigar, quando colher. Decisões que, há poucas décadas, dependiam quase inteiramente da experiência acumulada, da observação do céu e da terra.
Hoje, no bolso desse mesmo produtor, pode haver um smartphone com aplicativos de previsão climática, enquanto sensores de umidade instalados no solo, imagens de satélite atualizadas diariamente e, cada vez mais, algoritmos ajudam a decidir quando é hora de agir.
Ao final do dia, boa parte das decisões mais importantes daquele produtor pode ter sido tomada não apenas pela intuição, mas também por dados.
Mas e a terra?
Talvez seja justamente essa pergunta que aproxime duas áreas que, à primeira vista, parecem distantes: a Tecnologia e a Agricultura.
As profissões ligadas à Computação exigem lógica, precisão, modelagem e capacidade de lidar com grandes volumes de dados. As profissões ligadas ao campo exigem paciência, conhecimento do solo, respeito ao tempo das plantas e dos animais. E existe uma aproximação interessante nisso: enquanto desenvolvemos algoritmos capazes de prever safras, também precisamos continuar entendendo a terra que sustenta essas previsões.
Trabalhar com dados, evidentemente, não substitui o conhecimento do campo. Também seria equivocado imaginar que a tecnologia, sozinha, resolve os desafios da produção agropecuária. O que existe, na verdade, é uma complementaridade: sensores, drones e sistemas de inteligência artificial ampliam a capacidade de observação humana, mas não eliminam a necessidade de compreender o solo, o clima e o ciclo das culturas.
É importante inclusive distinguir automação de decisão. Um sistema pode automatizar a coleta de dados de umidade, temperatura ou nutrientes do solo, mas a decisão de quando plantar, adubar ou colher continua exigindo interpretação — seja humana, seja algorítmica, seja as duas combinadas. A Agrocomputação nasce exatamente nesse espaço entre o dado coletado e a decisão tomada.
Essa discussão interessa particularmente ao Maranhão, um estado de forte vocação agropecuária, onde a distância entre inovação tecnológica e realidade do campo ainda pode ser significativa.
Foi nesse cenário que, entre os dias 6 e 13 de setembro de 2026, o Parque Independência, em São Luís, recebeu mais uma edição da Expoema — a Exposição Agropecuária do Maranhão, promovida pela Associação dos Criadores do Estado do Maranhão (Ascem) em parceria com o Governo do Estado. Em sua 66ª edição, o evento reuniu produtores, criadores, empresas e instituições sob o tema “O Agro em Movimento”.
Não é por acaso que a tecnologia ocupou espaço crescente entre os estandes da feira. Máquinas e implementos agrícolas cada vez mais sofisticados, presença de drones e, em estandes como o da Embrapa, experiências de realidade virtual permitiram ao público mergulhar digitalmente em tecnologias desenvolvidas para produtores de diferentes portes.
Talvez tenhamos nos acostumado a pensar na Expoema apenas como uma feira de animais, máquinas e shows.
Não é só isso.
Por trás de cada animal premiado existe um sistema de rastreabilidade. Por trás de cada trator moderno existe um software de precisão. Por trás de cada previsão de safra existe um conjunto de dados coletados, tratados e interpretados. E é justamente nesse ponto que a Agrocomputação deixa de parecer tão distante do agronegócio tradicional.
Agrocomputação não significa apenas programar sistemas para o campo. Trata-se de uma área de conhecimento dedicada à aplicação da computação, da inteligência artificial e da ciência de dados aos desafios da produção agropecuária, da pré-produção à pós-produção.
Isso não significa transformar todo produtor rural em programador, nem imaginar que toda propriedade deva se tornar uma fazenda totalmente automatizada. Significa reconhecer que o dado precisa encontrar espaço em um cotidiano rural cada vez mais desafiado por variações climáticas, custos de produção e exigências de sustentabilidade.
Curiosamente, a própria tradição agropecuária também pode participar dessa aproximação. Estações meteorológicas automatizadas, imagens de satélite, sensores em áreas de plantio e sistemas de análise de dados já permitem acompanhar diferentes aspectos relacionados ao solo, ao clima e à produtividade. A Inteligência Artificial amplia ainda mais essas possibilidades, ajudando a prever pragas, estimar safras e otimizar o uso de insumos.
Surge então uma interessante via de mão dupla: profissionais de Tecnologia podem desenvolver ferramentas para apoiar a decisão no campo, enquanto produtores e técnicos agropecuários podem contribuir para que essas soluções sejam construídas a partir de uma compreensão real da terra, do clima e das culturas do Maranhão.
Talvez seja justamente por isso que precisamos levar a Agrocomputação para dentro de eventos como a Expoema — e trazer a Expoema para dentro das salas de aula de Agrocomputação.
Nós, profissionais de Tecnologia, gostamos muito da palavra dado. Coletamos dados de solo, de clima, de produtividade, de mercado. Procuramos transformar informação em decisão, reduzir incertezas e aumentar a eficiência da produção.
Mas existe uma pergunta que raramente aparece nos nossos algoritmos: enquanto otimizamos a produção, como estamos cuidando da terra que a sustenta?
A tecnologia continuará avançando. Os sensores serão mais precisos, os algoritmos mais sofisticados e a Inteligência Artificial estará cada vez mais presente nas decisões do campo. Provavelmente, novas edições da Expoema mostrarão máquinas ainda mais conectadas.
Por isso, pensar sobre Agrocomputação em um estado de vocação agropecuária como o Maranhão não é falar apenas sobre sistemas e algoritmos. É falar sobre como queremos produzir alimento, gerar renda e cuidar do meio ambiente em um mundo no qual boa parte das decisões do campo passa, cada vez mais, por uma tela.
Talvez uma das grandes oportunidades do nosso tempo seja justamente esta: usar máquinas capazes de enxergar padrões que os olhos humanos não alcançam, sem deixar de reconhecer que toda essa inteligência artificial nasce, cresce e se prova no chão, na lavoura, na criação.
Porque podemos desenvolver tecnologias extraordinárias para o campo.
Mas precisaremos de terra saudável, água disponível e produtores bem formados para colhêlas.
E, entre dados, sensores, algoritmos e telas, existe algo que nenhuma transformação digital deveria nos fazer esquecer:
existe uma terra.
Referências
ASSOCIAÇÃO DOS CRIADORES DO ESTADO DO MARANHÃO (ASCEM). Expoema 2026: 66ª Exposição Agropecuária do Maranhão. São Luís, 2026.
EMBRAPA MARANHÃO. Embrapa Maranhão participa da Expoema 2026. Portal Embrapa, set. 2026.
MASSRUHÁ, S. M. F. S.; LEITE, M. A. de A.; OLIVEIRA, S. R. de M.; MEIRA, C. A. A.; LUCHIARI JUNIOR, A.; BOLFE, E. L. (ed.). Agricultura digital: pesquisa, desenvolvimento e inovação nas cadeias produtivas. Brasília, DF: Embrapa, 2020.
FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS (FAO). Digital agriculture. Rome: FAO.