Entre códigos e telas, existe um corpo: por que a Educação Física também importa para quem trabalha com Tecnologia

FFI Formação Faculdade Integrada

Autoria: Prof. Roberto de Pádua Carvalho Reis
Coordenador do Curso Superior de Tecnologia em Agrocomputação e Inteligência Artificial e
docente dos cursos de Pedagogia e Bacharelado em Educação Física da FFI.

Imagine a rotina de um profissional de Tecnologia. Pela manhã, ele se senta diante do computador para trabalhar. Durante horas, escreve códigos, analisa dados, participa de reuniões, configura sistemas ou resolve problemas. No intervalo, olha o celular. Depois do expediente, talvez volte ao computador para estudar. Quando chega o momento de descansar, outra tela pode aparecer: uma série, um jogo ou as redes sociais.
Ao final do dia, esse profissional pode ter aprendido muito, produzido bastante e resolvido problemas complexos. Sua mente esteve extremamente ativa.

Mas e o corpo?

Talvez seja justamente essa pergunta que aproxime duas áreas que, à primeira vista, parecem distantes: Tecnologia e Educação Física.

As profissões tecnológicas exigem concentração, raciocínio lógico, criatividade e aprendizagem constante, mas também costumam envolver longos períodos diante de computadores. E existe uma contradição interessante nisso: enquanto desenvolvemos tecnologias para tornar processos mais rápidos e eficientes, construímos rotinas nas quais muitas oportunidades de movimento acabam desaparecendo.

Trabalhar sentado, evidentemente, não é uma doença. Também seria equivocado afirmar que todo profissional de Tecnologia leva uma vida sedentária. O problema está na repetição de determinados comportamentos ao longo do tempo. Horas de trabalho no computador podem ser somadas às horas de estudo, deslocamento, entretenimento e uso do celular, fazendo com que uma parcela considerável do dia aconteça com pouco movimento corporal.

É importante inclusive distinguir comportamento sedentário de inatividade física. Uma pessoa pode praticar exercícios e ainda permanecer sentada durante grande parte do restante do dia. A literatura científica tem chamado atenção justamente para a necessidade não apenas de praticar atividade física regularmente, mas também de reduzir períodos excessivamente prolongados de comportamento sedentário.

Essa discussão interessa particularmente aos profissionais de Tecnologia porque o corpo também participa da jornada de trabalho, mesmo quando quase não percebemos sua presença.

Dores nas costas, desconfortos no pescoço e nos ombros, alterações na composição corporal e outros problemas associados ao estilo de vida podem fazer parte de uma rotina marcada por poucas oportunidades de movimento. Além disso, atividade física, sono, saúde mental, capacidade funcional e bem-estar não são dimensões completamente separadas.

Talvez tenhamos nos acostumado a pensar no profissional de Tecnologia quase como um cérebro diante de um computador.

Não é.

Por trás de cada algoritmo existe alguém sentado em uma cadeira. Por trás de cada sistema existe uma pessoa que precisa dormir, movimentar-se, alimentar-se e cuidar da própria saúde. E é justamente nesse ponto que a Educação Física deixa de parecer tão distante da Tecnologia.

Educação Física não significa apenas esporte, academia ou busca por determinado padrão corporal. Trata-se de uma área de conhecimento dedicada também à compreensão do movimento humano, da atividade física, do exercício e de suas relações com a saúde e a qualidade de vida.

Isso não significa transformar programadores em atletas ou imaginar que todos devam seguir a mesma rotina de exercícios. Significa reconhecer que o movimento precisa encontrar espaço em um cotidiano profissional cada vez mais mediado por dispositivos digitais.

Curiosamente, a própria Tecnologia também pode participar dessa aproximação. Relógios inteligentes, aplicativos, sensores, dispositivos vestíveis e sistemas de análise de dados já permitem acompanhar diferentes aspectos relacionados à atividade física e ao desempenho humano. A Inteligência Artificial amplia ainda mais essas possibilidades.

Surge então uma interessante via de mão dupla: profissionais de Tecnologia podem desenvolver ferramentas para apoiar a saúde e o movimento, enquanto profissionais de Educação Física podem contribuir para que essas soluções sejam construídas a partir de uma compreensão adequada do corpo humano.

Talvez seja justamente por isso que precisamos conversar mais entre áreas.

Nós, profissionais de Tecnologia, gostamos muito da palavra otimização. Otimizamos algoritmos, bancos de dados, redes, códigos e processos. Procuramos reduzir desperdícios, aumentar desempenho e utilizar melhor os recursos disponíveis.

Mas existe uma pergunta que raramente aparece nos nossos códigos: enquanto otimizamos tantas coisas, como estamos cuidando de nós mesmos?

A tecnologia continuará avançando. Os computadores serão mais poderosos, os algoritmos mais sofisticados e a Inteligência Artificial estará cada vez mais presente em nossas profissões. Provavelmente passaremos ainda mais tempo interagindo com sistemas digitais.

Por isso, pensar sobre Educação Física em uma sociedade tecnológica não é falar apenas sobre exercício. É falar sobre como queremos viver em um mundo no qual boa parte do trabalho, do estudo, do entretenimento e das relações humanas acontece diante de uma tela.

Talvez uma das grandes contradições do nosso tempo seja justamente esta: criamos máquinas capazes de realizar cada vez mais movimentos por nós, enquanto precisamos reaprender a importância de movimentar a nós mesmos.

Porque podemos desenvolver tecnologias extraordinárias para o futuro.

Mas precisaremos estar saudáveis para vivê-lo.

E, entre códigos, dados, algoritmos e telas, existe algo que nenhuma transformação digital deveria nos fazer esquecer:

existe um corpo.

Referências

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. WHO guidelines on physical activity and sedentary behaviour. Geneva: World Health Organization, 2020.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Physical activity. Geneva: WHO.

ONAGBIYE, S. O. et al. Association of sedentary time with risk of cardiovascular diseases and cardiovascular mortality: a systematic review and meta-analysis of prospective cohort studies. Preventive Medicine, v. 179, 107812, 2024.

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